Na segunda-feira, a divisão parece lógica. Quem jogou mais de 60 minutos recupera. Quem jogou pouco ou não entrou precisa de um estímulo compensatório.
A sessão corrige parte da diferença criada pelo jogo e evita que o não titular atravesse a temporada acumulando menos exposição do que precisa para estar preparado.
Mas existe uma pergunta que essa organização, sozinha, não responde: o que acontecerá com esse jogador no próximo domingo?
Se ele sair do banco do jogo anterior, cumprir uma sessão compensatória importante no MD+1 e depois iniciar a partida seguinte, sua semana deixa de ser “a semana de um reserva”. Ela passa a combinar compensação, treinos e uma nova exposição competitiva completa.
Em equipes U23, U21 e U19 de um mesmo clube, os jogadores que passaram de não titular a titular apresentaram uma das maiores cargas externas acumuladas da semana.
A semana tem memória — e também destino
Grande parte da periodização no futebol organiza o microciclo a partir do que acabou de acontecer. O jogo anterior determina quem recupera, quem compensa e quanto falta para restaurar determinadas exposições.
Essa lógica retrospectiva é necessária. O problema começa quando ela se torna a única lógica.
Entre um domingo e outro, o jogador pode mudar de função por decisão técnica, suspensão, lesão de um companheiro, rotação, viagem, integração entre categorias ou estratégia para o adversário. Por isso, o estudo separou os atletas em quatro trajetórias:
- SS: titular no jogo anterior e titular no seguinte;
- SN: titular antes e não titular depois;
- NS: não titular antes e titular depois;
- NN: não titular nos dois jogos.
Essa classificação muda a pergunta. Em vez de comparar “titulares versus reservas” como grupos fixos, ela acompanha a transição entre duas partidas. E a transição mais sensível foi a NS: o jogador que não iniciou o primeiro jogo, mas seria titular no segundo.
O que foi medido
O estudo acompanhou 60 jogadores das categorias U23, U21 e U19 de um clube profissional. Treinos e partidas foram registrados por GPS, e a carga externa acumulada foi somada de segunda a domingo.
Entraram na análise distância total, player load, acceleration load, acelerações, desacelerações e distâncias em diferentes faixas de velocidade. O desenho considerou apenas semanas regulares, com jogos aos domingos e cinco ou seis sessões de treino.
A segunda-feira era o ponto decisivo. Quem havia jogado mais de 60 minutos fazia recuperação. Quem havia participado menos recebia uma sessão compensatória planejada para repor parte relevante do estímulo competitivo. No domingo seguinte, a nova partida completava a soma semanal.
| Categoria | NN | NS | SN | SS |
|---|---|---|---|---|
| U23 | 26.997 m | 35.649 m | 23.293 m | 34.428 m |
| U21 | 25.165 m | 34.749 m | 23.197 m | 31.810 m |
| U19 | 26.272 m | 33.995 m | 24.069 m | 33.257 m |
Dados do artigo rediagramados fielmente. NS = não titular na partida anterior e titular na seguinte.
Em todas as três categorias, os grupos NS e SS apresentaram mais carga global do que NN e SN. Nas variáveis globais, a semana ficou em torno de três a quatro vezes a demanda de uma partida.
À medida que a velocidade aumentava, esse múltiplo tendia a cair — um lembrete de que acumular distância não garante, por si só, exposição suficiente às ações mais rápidas do jogo.
O jogador NS recebe carga dos dois lados
O padrão é coerente com a arquitetura da semana. O atleta NS chega à segunda-feira com baixa exposição competitiva e, por isso, recebe compensação. Depois, participa dos treinos do microciclo. No domingo seguinte, inicia a partida e acrescenta uma carga completa ao acumulado.
Já o atleta SN percorre o caminho inverso. Ele começa a semana recuperando do jogo anterior e termina sem a mesma exposição na partida seguinte. Não surpreende que seu total seja menor.
Essa observação impede uma interpretação errada. O estudo não descobriu que “reservas treinam demais” nem que a compensação é inadequada. Parte da diferença acontece porque os grupos foram definidos pelo próprio jogo que encerra a semana.
Quando o planejamento olha apenas para o minuto jogado ontem, ele pode não enxergar a demanda provável de amanhã.
Mais carga não significa automaticamente carga excessiva
A palavra “maior” costuma ser rapidamente convertida em “excessiva”. O estudo não autoriza essa troca.
Não houve mensuração de fadiga, dor, sono, prontidão, percepção de esforço, lesão ou desempenho. Portanto, não sabemos se os jogadores NS chegaram ao segundo jogo mais cansados, mais preparados ou simplesmente mais expostos.
A sessão compensatória pode ser justamente o estímulo que preserva a prontidão de quem não jogou. Retirá-la sempre que houver alguma chance de titularidade também criaria risco de subexposição. No futebol, proteger não é necessariamente fazer menos; é entregar a dose certa, no momento certo, para aquela trajetória.
Também não existe um número universal extraído deste artigo. A amostra veio de um único clube, com jogadores jovens, semanas de um jogo e limiares absolutos de velocidade. O comportamento pode mudar em profissionais seniores, calendários com duas partidas, outras posições e diferentes modelos de compensação.
O erro não está no MD+1. Está em fechar a decisão no MD+1
A compensação pós-jogo precisa resolver uma lacuna real. Mas sua dose não deveria nascer apenas do passado. Ela pode incorporar a probabilidade de participação no jogo seguinte e ser revista conforme a semana avança.
Isso sugere um raciocínio em duas direções:
- Retrospectivo: quanto o atleta realizou no jogo anterior e quais estímulos ficaram abaixo da meta?
- Prospectivo: qual é a chance de ele iniciar ou acumular muitos minutos na próxima partida?
Essas perguntas não eliminam a incerteza da escalação. Elas tornam a incerteza explícita.
Um jogador com baixa exposição no domingo e baixa probabilidade de começar o próximo jogo pode precisar de uma compensação robusta. Outro, com a mesma exposição passada, mas alta probabilidade de titularidade futura, talvez necessite da mesma qualidade de estímulo distribuída de modo diferente.
Um monitoramento que acompanha a transição
Na prática, o status projetado pode entrar no mesmo fluxo em que a comissão já discute minutos, posição, retorno de lesão e necessidades individuais.
- Depois do jogo: fechar a exposição realizada.Registre minutos, distância, alta velocidade, sprint, acelerações, desacelerações e demandas específicas da posição.
- Antes da compensação: estimar o próximo papel.Classifique a probabilidade de participação como baixa, intermediária ou alta.
- No meio da semana: atualizar a carga e o cenário.Reavalie o acumulado após MD-4 e MD-3 e ajuste as sessões sem perseguir volume apenas pelo último jogo.
- Perto do jogo: confrontar carga externa com resposta interna.Percepção de esforço, wellness, sono, dor muscular e prontidão ajudam a contextualizar o GPS.
- Depois da decisão: aprender com o ciclo.Compare o plano com o que realmente aconteceu e use o histórico para melhorar a próxima previsão.
A nutrição também precisa enxergar o próximo domingo
O mesmo erro pode acontecer no abastecimento. Se a estratégia nutricional classifica o atleta apenas pelo jogo anterior, o não titular pode receber menos energia e carboidrato justamente na semana em que acumula compensação, treinos e uma partida completa.
A demanda não é definida pelo rótulo “reserva”; ela emerge do microciclo real e do papel provável. Isso não significa superalimentar todo jogador que pode iniciar. Significa periodizar com sinais concretos: carga realizada, sessão seguinte, minutos projetados, tolerância gastrointestinal, objetivo de composição corporal, recuperação e resposta individual.
Para o grupo NS, a prioridade costuma ser dupla: recuperar o trabalho compensatório sem apagar o estímulo e chegar ao jogo seguinte com disponibilidade para competir. Quando a escalação muda, o plano alimentar também precisa mudar — idealmente antes de o atleta entrar em campo.
Leia também sobre ritmo circadiano e recuperação, mitocôndrias e produção de energia e proteína para atletas.
Planejar jogadores, não rótulos
O estudo de Casamichana e colaboradores não entrega uma fórmula para reduzir a sessão compensatória. Ele entrega uma pergunta melhor.
O atleta que não começou o último jogo pode ser justamente quem mais acumulará carga até o próximo domingo. Se a comissão enxerga apenas a partida passada, o microciclo parece coerente dia a dia e ainda assim produz uma exposição semanal que ninguém antecipou.
A solução não é abandonar a compensação nem tratar toda carga alta como ameaça. É integrar o que aconteceu, o que provavelmente acontecerá e como o jogador está respondendo entre uma coisa e outra.
No futebol, titular e reserva são estados transitórios. A periodização precisa ser igualmente dinâmica.
Referências verificadas
Nota de uso: o estudo descreve carga externa em um clube e não estabelece que a maior exposição causou fadiga, lesão ou piora de desempenho. A aplicação deve ser individualizada.


